Se pudesse me
codificar em letras,
Certamente eu seria
uma poesia,
Dessas que
não tem rimas,
Composta de versos
brancos,
Composta de amor
declarado,
Composta apenas
de mim.
Seria a poesia
recitada,
A cada dia de
maneira diferente,
A poesia que nunca
está pronta,
A prometida aos
editores,
Que se mantém
na gaveta,
Aprimorando
sempre,
E que nunca é
a ideal.
"...Debaixo d'água lá se vai
a vida inteira...O sertão vai virar mar, dá no coração um medo que
algum dia o mar também vire
sertão..."
Sá, Rodrigues e Guarabira
"...Eu pedi pra chover mas
chover de mansinho, pra ver se nascia uma planta no
chão..."
Gordurinha e Nelinho
"...Choveu que abarrotou,
foi tanta água que meu boi
nadou..."
Cordel do Fogo Encantado
"...Uma esmola para o
sertanejo, ou corrompe o sujeito ou lhe mata de
vergonha..."
Luiz Gonzaga
Quem vê nos jornais as notícias da água invadindo as cidades
nordestinas, como Sobral, Trizidela e Parnaíba, por mais que se
solidarize nem imagina o impacto que isso tem na vida do homem do
sertão. Ver morrer o
boi levado pela enxurrada, junto com o pasto e os móveis de sua
casa e, com sorte, ver seus filhos com fome e sem
morada.
Pior do que não ter mais nada, é ter consciência que não é má sorte
essa estada, que é a mão do homem que escreve essa história tão
trágica, ao passo que destrói aquela que deveria ser
conservada.
Não sou sertaneja de corpo, mas de alma, e me tira a calma tudo o
que faz sofrer minha gente, ainda mais quando penso que ela é a
parte que mais sente as reviravoltas de um mundo, cujos frutos não
lhe pertencem.
Neste cinco de junho, dia do meio ambiente, venho escrever todas as
minhas mágoas, desabafar no papel, publicar no blog toda a minha
raiva, porque, como engenheira, sei que a tecnologia não veio para
destruir o mundo em que vivemos, não estamos aqui para aplaudir um
céu cinzento.
Herdamos matas, mangues, cachoeiras, cascatas, e o que
deixaremos?
Nada?
Delirose Ramos
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